A Perfeição da Generosidade

De acordo com os ensinamentos budistas existem três bases para ações meritórias: a caridade (dāna), disciplina moral (sīla) e desenvolvimento mental (citta bhāvanā). Com relação às três, um comentário frequentemente repetido por aqueles que tiveram contato com praticantes budistas de origem asiática e também com os de origem ocidental, é de que os asiáticos em geral têm mais interesse pela prática de dāna, já os ocidentais tendem quase que exclusivamente à prática de citta bhāvanā. E qual seria a razão para isso?

A primeira explicação que vem à mente quando se pensa no assunto é que em nossa sociedade há muitos maus exemplos de pessoas se aproveitando da fé religiosa para explorar financeiramente as demais. Mas é pouco provável que seja essa a real razão, uma vez que esse fenômeno também é muito comum e bem conhecido de todos nas sociedades budistas asiáticas. Se de fato fosse essa a razão, entre os asiáticos a prática de dāna também seria muito menor, nas mesmas proporções dos ocidentais.

Uma explicação alternativa é de que, como mencionado anteriormente, o que mais atrai os ocidentais ao budismo é o interesse pelo desenvolvimento mental e espiritual, pois é nisso que enxergam no budismo um grande diferencial com relação às demais vertentes espirituais. Já no que diz respeito à prática de boas ações, o desenvolvimento da compaixão, ou mesmo criar condições cármicas para obter felicidade no pós-morte, essas pessoas poderiam fazê-lo utilizando as tradições já existentes e bastante disseminadas por todo o mundo ocidental.

Em países tradicionalmente budistas, a maioria esmagadora da população também possui interesse quase exclusivo pela devoção e a caridade.

 De fato, em qualquer tradição espiritual, não é comum a maioria das pessoas terem interesse em práticas de cultivo mental diretas – são poucas as que desenvolvem esse interesse. O mais comum entre a grande massa de pessoas é a prática da devoção e da caridade pois são práticas mais simples, mais grosseiras (no sentido de estarem diretamente relacionadas ao mundo material) e que oferecem uma gratificação emocional imediata. E isso é válido tanto para os ocidentais quanto aos orientais. Em países tradicionalmente budistas, a maioria esmagadora da população também possui interesse quase exclusivo pela devoção e a caridade. O que difere entre nós é que as pessoas que têm interesse por esse tipo de prática não enxergam nenhuma boa razão para tornar-se budista uma vez que a religião atual delas já fornece todas as ferramentas necessárias para o que desejam praticar. O que atrai os ocidentais ao budismo é justamente o conhecimento profundo da natureza da mente humana e o know-how em como purificá-la e devolver-lhe um estado de saúde.

Em países desenvolvidos, essa separação é compensada por uma grande presença de imigrantes asiáticos vindo de países onde a tradição Theravada predomina, que então se encarregam de tornar a existência física dos mosteiros e centros de meditação possível através de doações e ajudando no trabalho de manutenção e administração.

Outro fator importante no Brasil é a inexistência de mosteiros Theravada e, curiosamente, a razão pela qual isso é relevante na verdade não é o fato de que doações feitas à sangha monásticas serem consideradas mais meritórias pois, como já mencionamos, a maioria dos praticantes brasileiros não têm a busca por esse tipo de mérito como principal motivação em suas práticas. A real razão pela qual a ausência de mosteiros é um fator está relacionada à confiança: de um monge é possível exigir um mínimo de bom comportamento, uma vez que existe uma regra monástica clara estabelecida pelo próprio Buddha, e é sabido de todos que a intenção dele era de que aqueles que se declaram “bhikkhus” se comportassem de acordo com os preceitos lá especificados.

Essa regra não só impõe limites, como também define um estilo de vida de simplicidade, o que em parte garante que os recursos oferecidos não serão desviados para ganho pessoal. Como exemplo podemos citar o voto de celibato: um monge sendo celibatário, é de se esperar que ele não vá utilizar os recursos doados na busca pelos acessórios da vida sexual: roupas, jantares, carros, enfeites, etc. Além disso, não tendo filhos, não terá despesas com educação, saúde e moradia de crianças; não possuindo herdeiros, tudo o que é doado ao mosteiro é propriedade da sangha, não será transmitido como herança a ninguém. Essa linha de raciocínio se amplifica e ramifica de muitas outras maneiras quando se leva em consideração as demais regras de conduta e também qualidades monásticas como simplicidade, renúncia, a capacidade de aguentar desconfortos, abstinência do consumo de toda forma de prazeres sensuais, etc.

Já com um professor leigo a situação é diferente: é difícil estabelecer um padrão de conduta claro que os discípulos possam exigir do mestre. Estando ele imerso no mundo da sensualidade, existe uma grande quantidade de despesas e deveres com as quais é necessário arcar. Existem idas a restaurantes, bebidas, roupas e acessórios, cosméticos, cerimônias de casamento, lua de mel, mensalidades escolares, impostos, pensões alimentícias, honorários de advogados, etc.

É de se esperar uma linha de comportamento mais clara e segura da sangha monástica.

É óbvio que não é um assunto tão simples – regularmente presenciamos exemplos de monges se comportando mal, assim como de professores leigos de comportamento nobre e exemplar – mas ainda assim, em termos gerais, é de se esperar uma linha de comportamento mais clara e segura da sangha monástica, e mesmo quando esta está ausente, ainda resta à comunidade leiga um padrão de comportamento como fonte de referência que pode ser exigido deles.

Portanto, por uma questão de regra de conduta, de valores e estilo de vida, é mais fácil às pessoas terem confiança de que uma doação feita a uma instituição monástica será utilizada para os fins diretamente relacionados à preservação e divulgação do Dhamma.

Além disso, é importante lembrar que o Buddha era um monge antes de alcançar a iluminação, continuou monge após ter alcançado e foi além, criando a ordem monástica e dedicando boa parte de seu tempo ajudando a estruturar e garantir seu bom funcionamento e longevidade. A sangha monástica foi a quem o Buddha sempre deu prioridade na hora de transmitir o Dhamma, e foi a ela que ele delegou o dever de preservar e disseminar seus ensinamentos por todo o mundo. Por essa razão também podemos dizer que uma doação feita para ajudar a sangha monástica gera mais benefício do que qualquer outra.

O interesse dos ocidentais em citta bhāvanā é de fato louvável, mas o risco de uma visão parcial do assunto é justamente não compreender quão interconectado é o treinamento idealizado pelo Buddha. A generosidade como prática regular tem consequências muito intrincadas, ramificações muito relevantes que operam com sutileza na mente.

Dāna em si é uma forma de treinamento. É um poderoso antídoto contra os venenos do apego e egoísmo, uma forma de compreender pouco a pouco que nossas necessidades são, na realidade, muito menores do que a mente indisciplinada faz crer. É uma das formas mais claras de se desvencilhar de objetos de nossos desejos que inevitavelmente levarão, por serem impermanentes, ao sofrimento. A prática de dāna é considerada tão importante que constitui uma das pāramīs, perfeições ou grandes qualidades que caracterizam um Buddha.

À medida que criamos alguma maturidade básica na prática do Dhamma, vendo o benefício que isso traz a nós e às pessoas em volta, praticamos dāna com alegria, sentimos que é um privilégio poder fazer uma contribuição, por menor que seja, para que outros tenham acesso ao que há de mais elevado nesse mundo. Sentimo-nos profundamente gratos por aquilo que o Buddha proporcionou aos seres com seu ensinamento, e enxergamos como nosso dever fazer nossa parte para que esse ensinamento possa continuar a florescer. Tomamos consciência que somente o esforço de muitas outras pessoas antes de nós possibilitou que nós mesmos agora tivéssemos acesso ao Dhamma.

A prática da generosidade é um das formas mais básicas de construir autoestima.

A prática da generosidade é um das formas mais básicas de construir autoestima. Uma autoestima saudável é fator vital para conseguir pacificar e concentrar a mente. Se a pessoa só tem ódio, vergonha ou insatisfação consigo mesma, se ao voltar sua atenção para dentro de si o que ela encontra é pesar, ganância e rancor, é muito pouco provável que conseguirá manter a atenção tempo o suficiente para gerar concentração mental. E mesmo a qualidade da mente, ao invés de brilhante e expansiva, será fosca e tímida. Em conjunto com sīla, dāna constrói grande parte das fundações sobre as quais samādhi se torna possível.

Além de influenciar diretamente os estados mentais do praticante, dāna também cria condições onde nossa prática do Dhamma será possível, na forma de centros de meditação, centros de retiro, ou criando as condições para que aqueles que tenham força espiritual para isso, possam dedicar todo o seu tempo à sua prática pessoal e então transmitir aquilo que aprendeu aos demais.

Para mais detalhes sobre como dāna é parte fundamental de citta bhāvanā, recomendamos a ouvir este ensinamento dado na sede da Sociedade Budista do Brasil em novembro de 2017.

https://www.youtube.com/watch?v=iuC-w_DUYi8

Mesmo sob um ângulo mais amplo, a prática de dāna pode ajudar a plantar condições para o progresso de citta bhāvanā em vidas futuras. É dito que o bom carma realizado, de várias formas condiciona positivamente nascimentos futuros provendo boa saúde, boas condições materiais, nascimento em locais pacíficos onde haverá acesso a bons amigos e professores, e assim por diante. Tudo isso também é relevante. Uma pessoa que mal tem o suficiente para se alimentar, provavelmente não vai ter tranquilidade ou espaço mental para se preocupar com outros assuntos além de sua sobrevivência no dia a dia. Ou, se por acaso nascemos com muitos problemas de saúde, apesar de não ser um empecilho intransponível, certamente teremos mais dificuldades que as demais pessoas, o que gera atraso no progresso do praticante.

Nos suttas (ex: AN 9.20, AN 7.52) é descrito em linhas gerais o mecanismo que rege este fenômeno: diferentes formas de generosidade geram diferentes níveis de bom carma, dependendo de alguns fatores como a qualidade de quem doa, a qualidade de quem recebe, o que é doado, e o bem que gera aquela doação. Numa situação onde uma pessoa em necessidade nos pede auxílio e, por exemplo, ofertamos alimento para que ela possa fazer mais uma refeição e sobreviver por mais um dia, ajudamos com um benefício de impacto visível na vida daquela pessoa, e o fruto dessa ação possui igual proporção. Se essa pessoa por ventura for tocada pelo ato de generosidade e resolve, quando em melhor posição, engajar-se em ações benéficas, nós também participamos desse momento, em profunda interconexão – colhemos o fruto desse conjunto de ações de amizade. Assim também o é quando ofertamos dinheiro a essa pessoa, mesmo que ela escolha utilizá-lo para sustentar, por exemplo, um vício em álcool. O impacto positivo de nossa ação é menor, mas ainda se colhe o fruto do nosso gesto de amizade.

O Buddha não encorajava as pessoas a doarem a ponto de prejudicar o bem-estar de suas famílias.

No entender do Buddha, no entanto, não há gesto mais positivo e nobre do que contribuir para o estabelecimento e difusão do Dhamma. O Dhamma é o antídoto final para a condição de angústia dos seres, o alívio derradeiro que atua na raiz do sofrimento. Assim, colhe-se o melhor dos frutos quando orientamos nossa generosidade para a manutenção e sustentação do Dhamma.

Apesar de todos esses benefícios, o Buddha não encorajava as pessoas a doarem a ponto de prejudicar o bem-estar de suas famílias, a prática de dāna também deve respeitar o princípio da moderação. Um famoso mestre tailandês falou muito bem sobre esse assunto. Este ensinamento pode ser encontrado em forma de vídeo ou texto no link abaixo. Recomendamos a todos que leiam e reflitam sobre o que ele disse.

http://dhammadafloresta.org/2015/01/como-um-budista-lida-com-dinheiro/

Em conclusão, estamos diante de uma situação única no Brasil: a construção do primeiro mosteiro Theravada do país, que plantará uma das sementes do Dhamma que certamente beneficiarão muitos que aqui se encontram e que ainda virão. Temos uma das poucas situações em que sabemos que nossa generosidade não será utilizada para fins escusos, mas para uma causa nobre, que traz alívio e alegria a muitos. É uma modalidade de prática inteiramente nova que se abre aos brasileiros e que nos possibilita cultivar nossa generosidade e torná-la solo fértil para que o ensinamento do Buddha floresça e alcance seu objetivo mais elevado, Nibbāna.

 

Algumas tradições tailandesas relacionadas à prática de dāna.

  • É comum as pessoas marcarem ocasiões importantes com um ato de caridade. Por exemplo, no dia de seu aniversário, a pessoa acorda cedo pela manhã e vai oferecer comida aos monges na rua. Se ela já faz isso regularmente, nesse dia ela prepara uma refeição especial. Caso queira marcar a ocasião ainda mais, em vez de doar a refeição na rua, ela pode mesmo convidar um grupo de monges para ir almoçar em sua casa. Outra opção é ir a alguma instituição de caridade e fazer uma doação lá, ou mesmo comprar uma lembrancinha para dar aos amigos mais próximos (diferente da nossa cultura, na deles é o aniversariante quem dá presentes!) Isso também se repete para qualquer tipo de ocasião especial: casamento, nascimento de um filho, inauguração de casa nova, abertura de um negócio, etc…
  • No que diz respeito à morte, as pessoas também costumam fazer doações em nome da pessoa morta, o que é chamada “transferência de méritos”. Isso é feito realizando alguma boa ação e dedicando mentalmente quaisquer méritos resultantes daquele ato a alguém já falecido, para que aquela pessoa esteja bem e feliz onde quer que esteja, ou, caso esteja num plano marcado pelo sofrimento, que supere aquele estado e consiga um nascimento melhor. Essas doações são feitas periodicamente: sete dias após a morte, trinta dias, cem dias, e então uma vez por ano, no aniversário de morte da pessoa querida.
  • Também é possível dedicar os méritos de uma boa ação a si mesmo, de preferência a algum fim nobre. Por exemplo, a pessoa pode fazer uma doação e ao mesmo tempo mentalizar: “que os méritos dessa boa ação me ajudem a trilhar o caminho do Dhamma e alcançar libertação!” Ou a pessoa também pode dedicar o mérito a coisas mais imediatas, como desejar boa saúde, desejar estar sempre em boa companhia, desejar estar protegida de perigos, etc. Em geral esse tipo de doação é feito regularmente – como a doação do alimento diário aos monges ou ajudar com tarefas no monastério como varrer, limpar, cuidar das plantas – e a repetição mental contínua desse propósito vai penetrando de forma profunda e condicionando a mente em direção àquele propósito.
  • Existem algumas formas de doações relacionadas à sangha monástica que são consideradas ainda mais auspiciosas do que as demais: ser o patrocinador de uma cerimônia de kathina, ser patrocinador de uma pessoa que vai ordenar-se monge, oferecer um alojamento ou templo ao mosteiro, ajudar com o tratamento de um monge doente, entre outras.
  • Uma recomendação comum, é dedicar a oferta a toda a sangha – de todas as direções, do passado, do presente e do futuro – tendo o monge que está recebendo a doação apenas como representante desta. Isso pode ser feito mesmo quando doando algo de uso exclusivo, como uma refeição: você ainda assim pode dedicar aquela refeição à sangha como um todo. Dedicar a doação desta forma é descrito nos suttas como a forma mais meritória que existe.
  • Dāna é considerado algo tão meritório que mesmo apenas por tomar deleite na doação realizada por outrem, já estamos realizando mérito. Por isso é comum pessoas participarem de cerimônias onde uma pessoa ou família realiza uma doação especial à sangha, apenas para poder sentir felicidade em ver aquela doação sendo feita e expressar seu contentamento.

 

Algumas palavras do Buddha sobre o assunto:

Sobre os fatores que fazem a doação perfeita:

“Quais são os três fatores do doador? O doador está alegre antes de doar; possui uma mente plácida e confiante no ato de doar; e sente-se inspirada após a doação. Esses são os três fatores do doador. E quais são os três fatores de quem recebe? Ele é desprovido de desejo ou praticando para eliminar o desejo; é desprovido da raiva ou praticando para eliminar a raiva; é desprovido de delusão ou praticando para eliminar delusão. Esses são os três fatores de quem recebe.

(…) Não é fácil medir o mérito de tal oferta, dizendo: ‘Esse é o tamanho desta correnteza de mérito, correnteza de bondade, alimento da felicidade – celestial, culminando no celestial, conduzindo à vida celestial – que leva ao que é desejável, agradável, condutivo a seu bem-estar e felicidade.’; de fato, é apenas chamada ‘uma grande massa de mérito, incalculável, imensurável’.” – AN 6.37

O Buddha classifica generosidade como um tesouro para aqueles que a possuem:

“E qual é o tesouro da generosidade? É o caso de um discípulo do Buddha de mente isenta da mácula da avareza, vivendo num lar, generoso, de mão aberta, deleitando em renunciar, dedicado à caridade, deleitando em doar e partilhar. Isso é chamado ‘o tesouro da generosidade’.” – AN 7.6

Utilizando o pensamento de generosidade como objeto de meditação:

“… você deveria refletir sobre sua generosidade desta forma: ‘É de fato boa ventura e ganho para mim o fato de que em meio a pessoas obcecadas pela mácula da avareza, vivo em casa com uma mente livre desta mácula, generoso, de mão aberta, deleitando na renúncia, dedicado à caridade, deleitando em doar e partilhar.’ Quando um nobre discípulo reflete sobre sua generosidade, sua mente não fica obcecada pelo desejo, raiva ou delusão; naquela ocasião sua mente está simplesmente correta, tendo generosidade como base. Um discípulo nobre cuja mente esteja correta ganha inspiração no significado, ganha inspiração no Dhamma, ganha alegria conectado ao Dhamma. Quando sua mente está alegre, êxtase surge. Para aquele que tem êxtase em sua mente, o corpo se tranquiliza. Aquele que é tranquilo em corpo, sente prazer. A mente daquele que sente prazer alcança samādhi. Isto é chamado um discípulo nobre que vive equilibrado em meio aos desequilibrados, vive sem aflições em meio aos aflitos. Na forma de um que entra na correnteza do Dhamma, ele desenvolve a reflexão sobre a generosidade.”

“… você deve desenvolver essa reflexão da generosidade quando caminhando, de pé, sentado, e deitado. Você deve desenvolvê-la mesmo quando trabalhando e vivendo em uma casa cheia de crianças.” – AN 11.11 – 12

Sobre o demérito de tentar impedir que alguém faça uma doação

“Aquele que impede outro de doar cria um obstáculo para três pessoas. Quais três? Ele cria um obstáculo ao doador adquirir mérito, àquele que recebe de obter um presente, e também já agrediu a feriu a si mesmo. Aquele que impede outro de doar cria um obstáculo para essas três pessoas. Mas Vaccha, eu digo que se adquire mérito mesmo que se jogue a água de lavar os pratos numa pilha de lixo ou numa fossa, pensando: ‘Que os seres que vivem aqui alimentem-se disto!’ Quanto mais então ele adquire mérito quando doando a seres humanos! No entanto, digo que o que é doado a alguém de comportamento moral é mais frutífero do que o que é doado a uma pessoa imoral.” – AN 3.57

Sobre o tesouro do mérito

“Bens, riquezas, prata, ouro, ou quaisquer posses que existam – escravos, trabalhadores, mensageiros e dependentes – devemos partir (para a morte) sem levar nada, tudo será deixado para trás. Mas o que é feito através do corpo, fala e mente é o que é de fato nossa propriedade. Isto sim é levado, isto é o que nos segue como uma sombra que nunca parte. Portanto, deve-se fazer o bem como uma reserva para a vida futura. Mérito é o suporte dos seres vivos no além vida.” – SN 3.20

“Quando uma casa está em chamas, o utensílio que é salvo é aquele que é útil – os demais são deixados para queimar. Estando o mundo em chamas da velhice e morte, deve-se guardar suas posses através da caridade: ‘o que é dado está bem guardado’. O que é dado traz frutos agradáveis – mas não os bens que são guardados. Ladrões ou reis os levam embora, é queimado pelo fogo ou se perde, e no final abandonamos o corpo e nossas posses. Tendo compreendido isto, o sábio faz uso de suas posses mas também doa. Tendo doado e feito uso de acordo com suas possibilidades, sem culpa, ele ganha o estado celestial.” – SN 1.41

O mérito das doações materiais e espirituais

“Monges, existem estes cinco benefícios para aquele que doa. Quais cinco? Ele é querido e estimado por muitas pessoas. Pessoas de bem buscam sua companhia. Ele adquire boa reputação. Ele cumpre seu dever como praticante leigo. Com a quebra do corpo, após a morte, ele renasce num bom destino, num mundo celestial. Estes são os cinco benefícios para aquele que doa.” – AN 5.35

“Doando comida, doamos força; doando vestimentas, doamos beleza; doando um veículo, doamos conforto; doando uma lâmpada, doamos visão. Aquele que doa uma residência, doa o todo. Mas aquele que ensina o Dhamma, doa o Imortal.” – SN 1.42

“Monges, brâmanes e donos de casa são muito úteis a vocês. Eles os provêm com os requisitos da vestimenta, alimentos, moradia e medicamentos. E vocês monges, são muito úteis aos brâmanes e donos de casa pois ensinam o Dhamma que é bom no começo, bom no meio e bom no final, com o significado e a expressão correta, e proclamam a vida espiritual em sua plenitude e pureza. Desta forma, monges, esta vida espiritual é vivida com suporte mútuo, com o propósito de cruzar a correnteza (do samsāra) e alcançar o fim do sofrimento.” – Iti 111

“A doação do Dhamma supera qualquer doação.” – Dhp 354

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