A amizade entre um Bodhisatta e um Arahant

21/09/2015
Publicado em Traduções
21/09/2015 Mosteiro Suddhāvari

Este texto relata a história da amizade entre Ajahn Man e Kruba Si Vichai; um seguindo o caminho para alcançar a iluminação no modo de um arahant, e o outro seguindo o caminho para iluminar-se no modo de um Buddha. O texto original deste relato pode ser encontrado neste link https://sites.google.com/site/wideanglewilderness/quotestories/spiritualfriendship. 


Tan Chao Khun Upālī Gunūpamājahn e Luang Pu Man Bhūridatto tinham sido amigos muito tempo, ajudando um ao outro ao longo de sucessivos estágios do Nobre Caminho. Chao Khun Upālī, 14 anos mais velho, tinha sido o primeiro professor de Luang Pu Man – É dito que Luang Pu Man alcançou o segundo caminho e fruto, o de sakadāgāmī, enquanto estava andando nas ruas de Bangkok (em frente à escola de Wat Pathumwan, que agora fica à sombra da grande meca do materialismo em Bangkok: Siam Square!) enquanto retornava de uma palestra do Dhamma ensinado por Chao Khun Upālī em Wat Boromniwat. Logo após isso, Luang Pu Man fez grande progresso com seu próprio esforço, atingindo o estado de anāgāmī, ou daquele que retorna uma vez, na caverna Sārika em Nakhorn Nayok, e retornou para Bangkok para ajudar Chao Khun Upālī.

Luang Pu Man então retornou para o nordeste da Tailândia e começou a atrair muitos discípulos. Durante esta primeira fase de sua carreira como professor, que durou cerca de 13 anos, ele desenvolveu tanta fama que isto começou a se tornar um obstáculo em sua prática. Durante este tempo, Chao Khun Upālī tinha conseguido terminar sua prática em Doi Tung, em Shan, estado de Burma (atual Myanmar). Quando Luang Pu Man decidiu abandonar temporariamente seu papel de professor, ele deixou seus discípulos sob tutela de Luang Pu Singh Khantayāgamo, e voltou para Bangkok para receber mais instruções de Chao Khun Upālī. 

Naquela época, um homem extraordinário chamado Kéu Nawarat havia se tornado o governante e administrador da província de Chiang Mai, ao norte do país. Objetivando  revigorar o ilustre histórico budista de Chiang Mai, ele tinha convidado os maiores monges da região para vir e restaurar os templos mais venerados na cidade. Ele convidou um monge do norte, o altamente respeitado e popular Kruba Si Vichai Sirivijayo, para residir e reconstruir Wat Phra Sing. Ele também convidou Tan Chao Khun Upālī para vir e ajudar a trazer Wat Chedi Luang de volta à sua antiga glória.

Nas muitas discussões que tinham em Bangkok durante o vassa daquele ano, Chao Khun Upālī elogiou as áreas do norte para Luang Pu Man – com suas florestas e montanhas, que haviam sido um ambiente muito adequado para que ele terminasse sua própria prática. Por que Luang Pu Man não vinha à Chiang Mai com ele? Ele poderia permanecer em Wat Chedi Luang por um tempo, e, em seguida, ser livre para passear pelas grandes florestas selvagens do norte. 

Luang Pu Man concordou e no final de 1927 três dos maiores monges da história moderna fixaram residência a poucos quarteirões na cidade de Chiang Mai. 

Uma vez em Chiang Mai, Chao Khun Upālī e Luang Pu Man começaram a ouvir relatos interessantes a respeito de Kruba Si Vichai, que vivia na mesma rua que eles. Por duas vezes, Chao Khun Upālī pensou em ir visitar Kruba Si Vichai – ressalta-se que ele ainda não havia relatado esta intenção a ninguém – e em ambas as vezes Kruba Si Vichai apareceu em sua porta para prestar respeito e reverência, explicando que Chao Khun Upālī era um grande monge tão respeitado e sênior que ele não poderia deixar que ele o fosse visitar. Assim, Kruba Si Vichai se apressou em ir a Chao Khun Upālī antes que este fosse lhe visitar.

Luang Pu Man também começou a se interessar por Kruba Si Vichai e, após investigar, anunciou publicamente a seus discípulos que Kruba Si Vichai era um Bodhisatta. Ele era um verdadeiro Bodhisatta e já havia desenvolvido a perfeição da resiliência (khanti pāramī), a tal ponto que as pessoas deveriam tomá-lo como modelo. Uma amizade começou entre Kruba Si Vichai e Luang Pu Man e várias pessoas tomaram conhecimento disto. Mas logo Luang Pu Man se despediu de Chao Khun Upālī e começou sua busca pela plena realização de arahant com afinco. 

Depois que alguns anos se passaram, Kruba Si Vichai tinha se mudado para poucos quarteirões a leste para começar a restaurar Wat Suan Dok e Chao Khun Upālī estava se preparando para voltar a Bangkok. Grande parte da restauração já tinha sido feita, mas ele queria que seu trabalho na divulgação do verdadeiro Dhamma continuasse. Ele queria que Luang Pu Man assumisse como abade de Wat Chedi Luang. Luang Pu Man veio para a cidade para prestar reverência a Chao Khun Upālī, e por respeito, concordou em se tornar o abade. Chao Khun Upālī desceria a Bangkok para obter um título eclesiástico para Luang Pu Man de “Phra Khru Vinayadhorn”, e o indicaria como upajjhāya. Por sua vez, Luang Pu Man também tinha um pedido a fazer:

“Tahn Chao Khun, algo vai acontecer com Kruba Si Vichai dentro de cinco anos. Você e eu conhecemos a natureza do coração de Kruba Si Vichai e sabemos que ele é irrepreensível e puro. Algumas pessoas poderosas tentarão destruí-lo. Eu gostaria que você, quando fosse para Bangkok, falasse com os monges anciões e de alto escalão sobre isso para que eles saibam. O que vai acontecer é o seguinte…”

Chao Khun Upālī foi para Bangkok. Pouco tempo depois, enquanto ensinava em Lop Buri, ele tropeçou e quebrou a perna. Descobriu-se que sua perna tinha se quebrado tão facilmente por ele sofrer de câncer ósseo em estágio final. Sua perna nunca se curou totalmente e ele faleceu cerca de oito meses depois.

Enquanto isso, Luang Pu Man continuou suas andanças e voltou a assumir suas funções como abade de Wat Chedi Luang, pouco antes do começo do vassa. Ao final da estação chuvosa, ele estava convencido de que seu tempo teria sido melhor empregado em outro lugar. Talvez ele também achasse que, com a morte de Chao Khun Upālī, já não estava mais vinculado a quaisquer promessas feitas a ele. Certa manhã, ele simplesmente foi embora do mosteiro e voltou para suas peregrinações e sua busca. Ele se dirigiu até distrito de Phrao, onde permaneceu por vários anos. Passou dois anos consecutivos na caverna Dok Kham, onde realizou o objetivo final da vida santa – a completa extinção do sofrimento.

Bem nesta época, Kruba Si Vichai estava terminando a restauração de Wat Suan Dok. Ele foi visitado por um funcionário de alto escalão que lhe fez uma proposta e um pedido: Doi Suthep, a grande montanha na borda oeste da cidade, tem uma estupa que era considerada uma das mais sagradas da região – as histórias dizem que relíquias sagradas do Buddha teriam vindo para esta área e foram consagradas naquela estupa. Nas noites de lua cheia e lua nova, era comum ver luzes coloridas, que se pensava serem devas, flutuando no céu e circundando esta estupa. A estupa era bastante reverenciada em Chiang Mai, mas seu acesso era difícil para os peregrinos – havia apenas uma pequena estrada irregular que levava até a montanha. Várias tentativas de construir uma estrada tinham sido feitas, mas, em seguida, todas foram abandonadas por causa das dificuldades. O governador de Chiang Mai queria saber: poderia Kruba Si Vichai ajudar a construir uma estrada até a montanha da estupa? Kruba Si Vichai respondeu que pensaria sobre isso durante a noite e daria uma resposta no dia seguinte.

No dia seguinte, Kruba Si Vichai respondeu que ele poderia construir a estrada. O administrador perguntou-lhe quanto tempo seria necessário para isto. “Seis meses”, ele respondeu. O administrador olhou para ele incrédulo. Esta era a Chiang Mai em 1936 – não havia tratores, rolos compressores nem quaisquer tipos de equipamentos mecânicos para realizar a construção da estrada. A estrada tinha que ser construída à mão, com enxadas e pás. “Seis meses!? Eu não posso dizer isto ao governador… Realmente? Seis meses? Você tem certeza?” 

Kruba Si Vichai fechou seus olhos em meditação por um minuto. Quando abriu os olhos, olhou diretamente para o administrador e disse: “Seis meses”.

Foram feitos preparativos e pesquisas para a encontrar a melhor rota para a montanha. A estrada teria um comprimento total de 11 quilômetros, com inúmeros caminhos em zigue-zague. O trabalho começou com empolgação. O administrador veio para ver como as coisas estavam indo. O que ele viu foram cerca de duas dúzias de pessoas cortando a terra com enxadas e picaretas. Ele não demonstrou nenhuma reação, mas por dentro estava em pânico. “Isso não vai levar seis meses – isso vai levar seis anos!” Enquanto ele estava ali observando, Kruba Si Vichai caminhou até ele: “Não se preocupe, excelência. Até o final da semana haverá mais pessoas trabalhando aqui”. No dia seguinte haviam cem pessoas trabalhando. No outro dia, quinhentas. Um dia depois, mais de mil. Ao final da semana, trinta mil pessoas de todo o norte da Tailândia tinham vindo para ajudar a construir a estrada.

Mais e mais pessoas vieram, o administrador que estava encarregado de facilitar o projeto, estava satisfeito. No início, como as pessoas continuavam chegando, ele começou a entrar em pânico de novo. Um dia, quando estava olhando as pessoas trabalhando, o medo aumentou em sua mente: “Tantas pessoas. Onde obteremos as ferramentas para eles? Como vamos alimentá-los?” A própria cidade de Chiang Mai não tinha uma população maior que 30 mil pessoas naquela época. Enquanto ele estava ali, cuidadosamente mantendo uma expressão impassiva, Kruba Si Vichai se aproximou. “Não se preocupe, sua Excelência. As pessoas que não puderam vir e trabalhar enviarão comida. Nesta hora, ele se virou e disse a um grande grupo de trabalhadores para começar a construir dois depósitos, um para arroz e alimentos não perecíveis e outro para alimentos frescos.

Na manhã seguinte, chegaram várias caravanas. Os proprietários de todas as lojas de ferragens de Chiang Mai, assim como muitos outros de todo o norte da Tailândia, haviam se reunido para oferecer à Kruba Si Vichai uma grande quantidade de ferramentas – pás, enxadas, picaretas, enfim, todos os tipos de coisas necessárias. Multidões e multidões de pessoas começaram a chegar com alimentos – arroz, peixe seco, frutas – tudo o que podiam trazer. Ao final do dia, ambos os depósitos ficaram completamente cheios.

Na manhã seguinte, no entanto, haviam 30 mil pessoas para alimentar e cada bocado daquele alimento tinha sido usado para preparar as refeições do dia anterior. E mais uma vez, multidões e multidões de pessoas vieram para a base da montanha onde Kruba Si Vichai estava sentado recebendo os visitantes. Todos eles tinham algo para doar. As pessoas que trabalhavam na estrada disseram que era uma coisa impressionante. Todas as manhãs esses dois armazéns eram completamente esvaziados para alimentar a todos e todas as noites eles estavam novamente cheios. Isto aconteceu continuamente durante seis meses. E, sentando calmamente ao pé da montanha, Kruba Si Vichai recebia todos os visitantes e oferendas.

Enquanto isto no distrito de Phrao, Luang Pu Man estava desfrutando a felicidade da libertação completa. Ele passou a mensagem para seu grupo de discípulos: qualquer um que se considere um discípulo de Ajahn Man deve vir visitá-lo pois ele agora tem algo mais a lhes ensinar.

Eu sinceramente penso que surgiu uma ferida no coração de Māra relacionado ao pequeno mosteiro perto da vila de Goi, agora chamado Wat Pah Ajahn Man, onde os discípulos se reuniam envolta dele para receber ensinamentos. Enquanto o Dhamma não está absolutamente puro no coração de alguém, Māra ainda exerce algum tipo de dominação, mesmo que pequena. Mas aqui, Luang Pu Man divulgava o Dhamma completo e purificado dos Arahants e como realizá-lo – e seus discípulos começaram a praticar de acordo com seus métodos hábeis. Em pouco tempo, muitos deles realizaram o Dhamma no mesmo nível que Luang Pu Man tinha realizado. 

No entanto, o resto do mundo não era completamente irrelevante para eles. Apesar de naquela época não haver rádios ou jornais, Luang Pu Man sempre parecia saber exatamente o que estava acontecendo em Chiang Mai, em Doi Suthep. Ele dizia a seus discípulos que Kruba Si Vichai tinha uma reserva incrível de paciência: “Ele fica lá ao pé de Doi Suthep o dia inteiro recebendo as pessoas e suas oferendas – e ele dá uma benção para todos eles ‘Yathā vārivahā pūrā, paripūrenti sāgaram…’ – não sei quantas centenas de vezes ao dia ele recita isso! Ele realmente tem muita paciência!” Luang Pu Man encorajou todos os discípulos para se juntarem ao seu esforço em enviar mettā –  amizade amorosa – para Kruba Si Vichai e para todas as pessoas e devas da região onde ele estava.

As pessoas que trabalhavam na estrada muitas vezes diziam que aquele era o melhor momento de suas vidas. Uma incrível atmosfera de harmonia e felicidade parecia permear toda a montanha. Eles trabalhavam durante todo o dia e quando a noite caia, fogueiras formavam o pano de fundo de festas improvisadas. Aqueles que podiam tocar algum instrumento musical, tocavam; aqueles que podiam cantar, cantavam; outros faziam performances artísticas e todo mundo acabava dormindo alegremente.

Enquanto trabalhavam ao longo dos dias, algo estranho se tornou cada vez mais claro para eles – todos os animais haviam desaparecido. Doi Suthep era uma montanha selvagem e repleta de vida. Mesmo elefantes e tigres eram comuns ali. Mas conforme eles avançavam com a construção da estrada, eles viam que até mesmo os formigueiros em seu caminho estavam vazios. Os rumores que se espalhavam diziam que Kruba Si Vichai difundira mettā por toda a montanha e pedira para que os animais saíssem enquanto a estrada era construída. Curiosamente, depois que a estrada foi concluída, os animais voltaram.

As coisas correram bem e progrediam continuamente. Um dia, um carro apareceu ao pé da montanha. Nesta época, havia apenas dois carros em toda a Chiang Mai, e o proprietário o tinha enviado para levar Kruba Si Vichai ao topo. Naquele dia, dois antes do término do prazo de seis meses, Kruba Si Vichai entrou no carro e foi levado até o topo da montanha. As pessoas pensavam que seus corações iam explodir de alegria e orgulho! A estrada estava terminada. Kruba Si Vichai subiu ao topo da montanha Doi Suthep e prestou reverência à estupa e toda a cidade de Chiang Mai fez a maior festa que já tinham visto até então. Durou duas ou três semanas.

Hoje em dia, Chiang Mai tornou-se um destino turístico muito popular, com milhares de pessoas vindo todos os anos do mundo inteiro. Há todos os tipos de atrações e coisas para fazer. Mas até hoje os moradores ainda dizem que você pode vir e fazer o que quiser na área, mas se ainda não prestou reverência ao santuário de Kruba Si Vichai ao pé da montanha e não foi até a estupa no topo da montanha – Phra That Doi Suthep – você ainda não esteve em Chiang Mai. Oitenta anos depois, esta continua a ser a história que define Chiang Mai, o momento em que ela entrou para a era moderna.

Nesta época, parecia que todas as correntes da sociedade, todas as correntes da cultura e todas as correntes religiosas do local giravam em torno desta conquista. E no centro de tudo havia Kruba Si Vichai. Mas haviam outros movimentos também. Estes eram movimentos obscuros que rondavam os corações ciumentos dos monges mais poderosos do norte da Tailândia. E enquanto os festivais de Chiang Mai ocorriam, o ódio deles começou a transbordar…

As autoridades da Sangha deram ordem para que Kruba Si Vichai fosse preso e detido. Uma série de acusações foram feitas contra ele, incluindo a destruição de florestas e a realização de ordenações ilegítimas. Eles pintavam uma imagem de um monge carismático tornado rebelde. As acusações não eram completamente inventadas – havia um mínimo de verdade, só o suficiente para que prosperassem. A acusação de que ele havia destruído florestas baseou-se nas árvores que foram cortadas no caminho para a construção da estrada. 

Já as acusações de ordenações ilegítimas eram mais complicadas: as autoridades da Sangha tentaram durante anos destruir Kruba Si Vichai. Eles pegavam seus discípulos e os entrevistavam ao estilo “inquisição”, forçando-os a abandonar o manto quando eles não denunciavam Kruba Si Vichai ou não o acusavam de alguma maldade. Muitos desses discípulos, à força e injustamente, foram forçados a abandonar o manto, e viviam uma vida monástica trajando vestes brancas. Vestes brancas na Tailândia representa o status de leigo renunciante.

Um certo número destes discípulos estava com Kruba Si Vichai durante a construção da estrada, incluindo um particularmente estimado por sua pureza conhecido como Kruba Khao Pi. Ele estava ajudando na construção da estrada ao lado dos leigos, e eles foram até Kruba Si Vichai reclamar: doía o coração vê-lo trabalhando ao lado deles como se fosse um discípulo leigo – eles sabiam que ele era um monge. Não poderia Kruba Si Vichai ordená-lo novamente?

Kruba Si Vichai levou estes pedidos às pessoas competentes da Sangha. Isto era um pedido normal e simples, que seria respondido dentro de um ou dois dias. Mas a questão se arrastou por semanas sem respostas e sem esperança de se conseguir uma solução. Uma das coisas que irritou as autoridades a respeito de Kruba Si Vichai ao longo dos anos era que ele não aceitava ser intimidado perante corrupção. Se a situação era claramente corrupta, ele a desafiava. E foi justamente isto que ele acabou fazendo a respeito de Kruba Khao Pi – ele reuniu um número suficiente de monges e o reordenou na montanha.

Por um lado sendo muito popular e por outro desafiando ameaças que sofria, ele era uma pessoa que deixava as autoridades da Sangha amargas. Eles o emprisionaram em uma cela para monges em Chiang Mai enquanto esperavam uma decisão sobre o que fazer com ele. Os discípulos de Kruba Si Vichai estavam extremamente preocupadas com rumores de que ele poderia ser assassinado. Seus devotos, então, cercavam dia e noite a cela de Kruba Si Vichai para protegê-lo. Por fim, chegaram notícias de que ele seria enviado a Bangkok para enfrentar acusações. Todos na região sabiam que as acusações eram forjadas, mas para um monge elas eram consideradas muito sérias. Com apenas a palavra das autoridades da Sangha nos relatórios, o futuro de Kruba Si Vichai aprecia muito duvidoso.

Após semanas de atraso, Kruba Si Vichai foi finalmente enviado de trem para Bangkok. Uma vez em Bangkok, foi lhe dado um quarto simples e lhe disseram para aguardar por seu interrogatório. Dentro de alguns dias ele foi chamado. Ele estava sentado em uma grande sala à frente dos maiores monges daquela região – os Somdets e Chao Khuns do Conselho de Anciãos. Ele permaneceu sentado calmamente enquanto as acusações eram lidas contra ele. Os monges mais velhos começaram seu interrogatório com algumas perguntas rotineiraas. Depois disto, surpreendentemente, todos começaram a dobrar seus documentos e guardá-los.

Um deles explicou: “É… Ok. Nós sabemos tudo sobre isto. Ajahn Man nos contou tudo sobre isto anos atrás. Tudo aconteceu exatamente como ele disse que aconteceria… Nós não vamos fazer nada com essas acusações. Mas gostaríamos de fazer um pedido a você. Nós queremos que você seja reordenado na ordem dos Dhammayuttika. E mesmo que você seja recém-ordenado, nós lhe tornaremos o monge mais importante da região norte da Tailândia. Dessa forma ninguém vai mexer com você de novo.”

Kruba Si Vichai sentou-se por um momento, colocou as mãos palma com palma na frente de seu coração em añjali: “Venerável Senhores, Eu tenho praticado desta forma por muito tempo. Deixe que as coisas andem de acordo com meu kamma.” Ele lhes disse de maneira educada que não aceitaria a proteção que lhe foi oferecida e que não necessitava de um refúgio. Ele já tinha seu próprio refúgio.

Kruba Si Vichai retornou para o norte da Tailândia, mas manteve discrição. Muitas pessoas queriam que ele voltasse a Chiang Mai. Em vez disso, ele discretamente tomou residência em sua aldeia natal, na província de Lampun. Enquanto ele estava lá, Luang Pu Man atravessou florestas e montanhas e foi visitá-lo.

Quando se sentaram juntos, Luang Pu Man abordou as questões pelas quais Kruba Si Vichai havia passado recentemente. “Irmão mais novo, este mundo está em chamas com a ganância, ódio e ilusão. Suas faculdades espirituais já estão amadurecidas. Por que você não vem estudar samatha e vipassanā comigo? Você rapidamente estará completamente livre do sofrimento.”

Kruba Si Vichai ergueu as mãos em añjali. “Ouvindo o Venerável Ajahn falar sobre o completo fim do sofrimento, eu sinto tanta felicidade e alegria… Mas o que você pede está além de mim. Eu estou praticando o caminho para o completo estado de Buddha, e eu já recebi confirmação na presença de um Buddha no passado de que alcançarei meu objetivo. Então, sinto muito Ajahn, mas não posso fazer o que você me pede. Neste ponto, não há nada que possa me impedir de realizar meu objetivo”. 

Luang Pu Man avaliou seu amigo por um momento e, então, levantou as mãos em a añjali. “Irmão mias novo, o que você está fazendo é o auge da realização humana – algo que muito poucos seres podem esperar realizar. Se é assim que você quer, cumpra seus votos com toda determinação.”

Luang Pu Man voltou para a floresta. No prazo de 18 meses Kruba Si Vichai Sirivijayo faleceu. Ele morreu com a idade de 60 anos. Em seus 40 anos como monge, ele restaurou o incrível número de 118 mosteiros e estupas por todo o norte da Tailândia. Lá ele é universalmente conhecido como “o santo de Lanna.”

Pouco depois da morte de Kruba Si Vichai, Luang Pu Man aceitou um convite para voltar para o nordeste da Tailândia. Quando ele veio para a cidade de Chiang Mai para começar suas viagens, ele foi convidado para dar uma palestra do Dhamma em Wat Chedi Luang durante a celebração da Vesākha Puja. Os relatos sobre esta palestra não são claros. Ele falou durante seis horas, ou foram oito? Ou foram dez? Era madrugada quando estava terminando, ou já tinha amanhecido? Ninguém se lembra direito. O que é certo é que Luang Pu Man não poupou palavras e prendeu a atenção de todos durante toda a noite. No final, ele se desculpou por manter todos ali durante tanto tempo. Ele explicou que  estava se mudando para o nordeste da Tailândia e não voltaria mais. Assim, esta seria a última vez que eles ouviriam um discurso do Dhamma pronunciado por ele. Ele não disse abertamente, mas algumas pessoas entenderam o significado mais profundo disto: ele voltaria a viver o resto de sua vida em Isaan e, depois de sua morte, nunca mais renasceria novamente – neste mundo ou em qualquer outro lugar. Este era realmente o último discurso do Dhamma que ele fazia ao povo de Chiang Mai.

As pessoas se perguntavam por que Luang Pu Man tinha passado tanto tempo no norte da Tailândia. A maioria de seus discípulos e contatos estavam no nordeste. Mas outros, que conheciam sua relação com Kruba Si Vichai, diziam que o momento de sua partida não era uma coincidência. Uma das coisas que o manteve no norte por tanto tempo foi o seu desejo de dar atenção ao seu “irmão mais novo”. Um Arahant silenciosamente ajudando um Boddhisatta: uma verdadeira história de amizade espiritual em seu nível mais elevado.

Tradução por Rafael Guimarães.


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